O que se come no Réveillon pelo mundo

Os pratos para festejar o ano que começa mudam bastante em cada país. Veja alguns cardápios e inspire-se!

Se para você é super natural vestir branco e comer lentilha na virada de ano, saiba que isso é algo bem brasileiro. Quem já passou a virada de ano em outros países sabe que é bem diferente. De 2009 para 2010, a minha foi em Frankfurt, Alemanha, na casa do meu irmão. Ele preparou um buffet maravilhoso com vários pratos quentes e frios e sim, havia peru, para o desespero dos brasileiros mais supersticiosos. Era inverno, então vesti minhas roupas para frio e nenhuma era branca, muito menos pulei as sete ondinhas. O que teve em comum foi o brinde e a festa que seguiu até altas horas. Decidi conversar com alguns estrangeiros para conhecer outras formas de festejar e, quem sabe, inspirar os leitores.

Árabes/ palestinos

Segundo a palestina Dima Msallam, o mais tradicional é fazer frango recheado com arroz, o Jaj Mahshy. Pesquisei e vi que há vários países do Oriente Médio que comem este prato,  encontrei diversas receitas. Uma opção gostosa e barata.

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Espanha

O madrilenho Borja Serrano explicou que, conforme a região da Espanha, mudam os pratos. Aliás, é interessante destacar que há bastante diferenças gastronômicas no país, que é uma junção de reinos, o que explica o separatismo dos catalães. Voltando ao assunto, segundo Borja, costumam comer carnes. Em Madrid, ele afirma que é muito  comum comer peixe assado no forno com batatas, o Besugo al horno con patatas panaderas ou patatas escalfadas, “na minha família é o que costumamos comer, até porque é um prato mais leve para consumir à noite”, conta Borja. A sugestão para quem está no Brasil é utilizar merluza. Basta procurar no Google e aparecerão muitas receitas.

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República Democrática do Congo

Primeiramente, é bom destacar que a República Democrática do Congo não é o mesmo país que o Congo, embora quem nasça em ambos os países seja congolês. Segundo Francis Mwanza, em sua terra natal, as festividades ocorrem no dia 1º de janeiro, “no meu primeiro ano aqui no Brasil fui à Cidade Baixa e estava tudo fechado, estranhei muito”, lembra o jovem. A Cidade Baixa é um tradicional bairro boêmio de Porto Alegre , onde ele mora. Na última noite do ano, é tradição na República Democrática do Congo ir à igreja e encerrá-lo de maneira mais espiritual para iniciar o próximo junto a Deus. As comemorações não tem uma comida típica, eles comem os pratos tradicionais mesmo, compostos por frango, feijão, banana da terra e peixes. Gosto de destacar as sambusas, que são uns pastéis fritos com recheios como peixe, carne e vegetais. Outro ícone dos países da região é o fufu, o acompanhamento de muitos pratos, é tipo uma polenta. É uma massa cozida à base de farinhas de milho, arroz, ou mandioca, varia conforme o local.

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Fufu com coxa de frango. Foto: Benketaro

África do Sul

Assim como nós, os sul-africanos estão no verão agora. Segundo a Natalie Chicksen, em seu país eles costumam fazer um típico churrasco americano ao ar livre, com carnes, linguiças e saladas de acompanhamento, entre elas, a de batata. Segundo ela, também tem muita cerveja. “Não pode faltar a cerveja, aqui gostam muito!”, afirma. Quem preferir vinho (como eu) pode optar pelos vinhos sul-africanos, que são deliciosos (recomendo).

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Alemanha

Eu já falei inicialmente como foi a minha experiência. Procurei uma amiga alemã, a Judith Kratz, para saber mais. Segundo ela, é muito comum os germânicos se deliciarem com fondue de queijo e raclete, que é um queijo derretido junto de vários acompanhamentos, como pão, cogumelos, bacon e o que mais quiser. “O pão sempre tem, os alemães amam pão!”, explica. Pelo que vi, é um cardápio condizente com as baixas temperaturas.

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Hungria

Por lá os pratos também tem a ver com o frio, mas um se destaca. É o Disznó Kocsonya, que é uma gelatina de porco. De acordo com a húngara Szilvia Simai, ela é saborosa e exige muitas técnicas e tempo em sua preparação. “Fica muito interessante, leva vários condimentos, como a pimenta, e tem que saber a técnica de congelamento ao preparar”, explica. Este prato tive um pouco mais de dificuldade de encontrar receitas, então ao final desta matéria tem uma receita que achei em um grupo de receitas húngaras no Facebook.

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Ouça a versão de rádio desta matéria!

Disznó Kocsonya [kocsonya de porco]

Este prato é conhecido e muito apreciado na Hungria, pode ser feito com diversas carnes. 

• Ingredientes:

Carnes:
½ cabeça de porco, 2 pés, couro e 2 joelhos, completando assim mais ou menos 2 kg.
½ kg de carne (pernil)

Temperos:
1 folha de louro
1 maço de salsinha
1 cebola inteira
3 dentes de alho inteiros
pimenta do reino em grão (10 grãos)
paprika a gosto
sal a gosto

• Modo de preparar:
Limpar e lavar bem as carnes, colocar na panela. Acrescentar os temperos, cobrir com água e iniciar o cozimento.
Assim que abrir fervura, deixar cozinhar em fogo baixo por aproximadamente 3-4 horas, observando para que a água se mantenha sempre no mesmo nível (1½ litros mais ou menos).
Quando as carnes estiverem macias e despreendidas dos ossos, selecionar os pedaços, descartando os ossos e partes que não se deseja comer e, arrumá-los em vários pratos de sopa.
O caldo deve ser coado e depois de esfriado, a gordura removida da superfície com uma concha.
Com a concha, colocar o caldo em cima das carnes em vários pratos fundos separados, até cobrir fartamente.
Deixar esfriar e levar à geladeira, mas não congelar.

Assim que adquirir a consistência de uma gelatina, regar com suco de limão e consumir.

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Esta receita foi enviada por Zita Kalmar Viquetti, de Jundiaí, SP.

Chef ensina a fazer PF perfeito

Um bom Prato Feito exige tanta técnica quanto um prato de luxo.

Comida boa não precisa ser cara, tem que ser gostosa, e ponto. É por isso que o tão conhecido Prato Feito, ou PF, continua a ser a opção diária de muita gente que busca aliar uma alimentação reforçada a um precinho camarada.

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Esta alternativa teria ganhado força nos restaurantes populares brasileiros na década de 1950, quando começou a aumentar a população nas cidades. Os trabalhadores precisavam de um almoço bom e barato, então os restaurantes começaram a oferecer a opção. Geralmente ele é composto por arroz, feijão, bife e ovo frito. Há variações com farofa, salada e batatas fritas.

O PF tem sim muito valor. Segundo o Chef Cássio Naiff, de Porto Alegre, este prato não deve ser menosprezado: “Um bom PF exige tanta técnica quanto um prato de um restaurante de luxo”, explica.

O Entre Cozinhas e Histórias mostra agora como preparar um arroz soltinho e saboroso, um bife suculento e dourado e um ovo frito perfeito! “Feijão eu prefiro deixar para cada um fazer o seu, há muitas formas de preparar”, pondera o Chef.

 

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Ovo frito perfeito:

De acordo com Cássio Naiff, não é apenas jogar na frigideira com óleo: “o que ovo que você frita e fica crocante e queimadinho nas bordas é o ovo estalado, não o ovo frito”. Então como faz? É simples.

Nosso chef explica que basta colocar a frigideira no fogo. Ao esquentar se coloca manteiga e um fio de azeita, em seguida entra o ovo.  Deixa fritar por 2 minutos e desligar. Em seguida coloque uma tampa na frigideira e espere 5 minutos. Ao abrir estará lá o ovo frito perfeito! “O ovo estará perfeitamente cozinho, coma clara firme e sem bolhas e a gema nem mole, nem dura, mas firme e cremosa”, revela o chef. O tempero pode ser apenas sal, mas se preferir, coloque também pimenta preta moída na hora.

 

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Arroz branquinho, soltinho e gostoso:

Não tem erro! Basta pegar uma panela com uma parede mais alta, água quente, alho, azeite e sal. A panela vai ao fogo com o azeite, o arroz e o alho picado. Mexa, mas não deixe o arroz mudar de cor. “Uma dica é colocar um pouco de sal enquanto frita, pois é neste momento em que o grão absorve melhor o sal”, orienta Cássio.

Adicione a água quente, deixe sempre um dedo de água acima do arroz. Baixe o fogo e deixe a tampa entreaberta. Ao observar os furinhos desligue e deixe a panela fechada por alguns minutos. Um dica é colocar uma folha de louro para ferver na água, dá um toque.

 

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Bife bom:

É uma técnica simples. “Sempre me incomodou aquele bife cinza e seco”, conta Cássio. Para que não fique assim, deixe a panela ou a frigideira super quentes, saindo fumaça. A carne pode ser tempera a gosto antes ou depois de ser frita. Coloque na frigideira (ou panela) bem quente, isso irá selar a carne, ou seja, ela ficará dourada e irá manter os líquidos. Em seguida coloque o óleo. Deixe 2 ou 3 minutos. Se a peça for mais alta e você quiser bem passada, leve ao forno bem quente depois para terminar de cozinhar por dentro. O tempero pode ser sal e alguma erva, como tomilho. Também pode fritar junto com um dente de alho esmagado. Se quiser usar manteiga deve-se ter cuidado, pois ela queima rápido. É recomendado misturar com óleo e se fizer questão de usá-la, prefira adicionar no final, apenas para derreter e dar sabor.

Estas são algumas dicas profissionais. Entretanto, nosso entrevistado ressalta que o importante é ser bom, “O melhor prato aquele que a gente gosta de comer”.

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Chef mostra como usar alho em doces!

O Entre Cozinhas e Histórias mostra que o alho pode fazer parte da sobremesa!

O alho é o tipo de alimento que uns amam e outros odeiam, eu sou do time dos que amam! Não sou a única, há, inclusive, restaurantes totalmente dedicados a ele, como o The Stinking Rose, nos Estados Unidos, cujo lema é “nós preparamos nosso alho com comida”. Já dá para ter uma ideia. Lá tudo é de alho, inclusive AS SOBREMESAS.  Você não leu errado, há quem faça doces com alho e é sobre isso que vou falar.

Aqui no Brasil é algo super exótico, poucos conhecem. Como eu sou super curiosa, pedi ao chef Cássio Naiff, de Porto Alegre,  que preparasse algum doce com este ingrediente. O resultado foi este belíssimo Pierogi (fala-se PIEROGUI) de geléia de alho assado, paçoca e colis de laranja e tangerina (também chamada de bergamota por nós, gaúchos). Receita exclusiva para o Entre Cozinhas e Histórias!

 

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Sobremesa de alho do Chef Cássio Naiff. Foto: Cássio Naiff.

 

O Cássio não escolheu esta receita por acaso. O Pierogi é um prato típico da Polônia, onde provavelmente surgiu a ideia de usar o alho em preparações doces. “Fiz um estudo sobre doces poloneses e encontrei o Pierogi, que é um prato muito clássico e não costuma ter releituras, mas como não sou polonês, inovei”, brincou. Segundo ele, o resultado foi bem diferente. Ficou muito gostoso e, apesar do sabor marcante, o alho ficou suave e combinou com os demais ítens. “Ficou muito incomum, é o doce mais diferente que já provei, é um estranho bom”, definiu ele.

Geralmente, é usado em doces o alho negro, feito com o alho in natura, que passa por um processo de fermentação e depois é submetido à temperatura de 65ºC em ambiente com umidade controlada. O resultado é que além de ficar preto, adquire sabor mais suave e adocidado. Entretanto, o chef usou o alho comum mesmo, comprado em supermercado. “Como é dificil de encontrar o alho negro e é muito caro, usei alho comum e assei. Fiz uma geleia com toque de limão, assim fica mais suave”, explica.

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Alho negro, o queridinho de muitos cozinheiros. Foto: Maison Boutarin

 

Cássio Naiff explica que a massa é parecida com a do Guioza, mas mais grossa, fofa e resistente. Ele intercalou com o recheio e, como a massa é básica, nem doce, nem salgada, ficou ótima com a geléia. A doçura ficou mais por conta do açúcar e da paçoca. A acidez do colis fechou tudo de forma harmônica e equilibrada. Aqui no Brasil há outros cozinheiros que arriscam, como o Chef Washington Silveira, que faz trufas de chocolate meio amargo e alho.

Afinal, de onde os poloneses tiveram esta ideia? Começaram por necessidade em tempos de guerra, quando os alimentos estavam escassos e a moda pegou. O Cássio me contou sobre o chef polonês Karol Okrasa, à frente do restaurante Platter, onde ele apresenta em seu menu uma sobremesa com crumble de cebola e outra com colis de chicória.

Não deixe de ouvir a versão de rádio desta matéria!

Para quem ficou curioso, aqui vai a receita!

Ingredientes:

  • 2 cabeças de alho cortadas ao meio
  • 250g de açúcar refinado
  • 200ml de água

Modo de preparo:

Asse as cabeças de alho embrulhadas em folhas de alumínio em forno pré aquecido a 200 graus. Espere esfriar e separe os dentes da casca e em uma panela adicione o alho, o açúcar e a água. Deixe em fogo bem baixo de 20 a 30 minutos cuidando sempre. Após esse tempo, adicionar um pouco do suco de meio limão. Deixar esfriar.

Para a massa do Periogi:

  • 250g de farinha
  • pitada de sal
  • uma colher de café de açúcar
  • raspas de casca de limão

 

Modo de preparo:

Misturar a farinha, o sal e o açúcar e aos poucos adicionar 250ml de água até dar ponto, deixar descansar por cerca de 30 min. Abrir e cortar como preferir. Assar em forno pré aquecido a 180°c durante 50min.

O colis de laranja e bergamota é  feito com suco de duas laranjas e uma bergamota. Levá-lo ao fogo em uma panela com 100g de açúcar. Deixe reduzir em fogo baixo por mais ou menos 20 minutos.

Espere esfriar, monte e sirva!

Pitadas ECH

Uma lista de curiosidades super legais sobre gastronomia!

Aqui tem uma lista de curiosidades em constante crescimento. Se quiser aprofundar mais nestes assuntos, é só acompanhar as matérias do Entre Cozinhas e Histórias no blog e pela Agência Radioweb.

 

  • O bauru não surgiu no município de Bauru, em SP. Ele foi criado na cidade de São Paulo
  • Abacate na sobremesa é só no Brasil mesmo. Nos outros países, ele é comido em preparações salgadas. Causa bastante estranhamento nos estrangeiros falar na versão doce
  • Na Polônia, há receitas de doces que levam alho, cebola e chicória
  • Brasileiros já precisaram fazer uma petição para poder comer frango
  • O pão de queijo se espalhou pelo Brasil a partir da década de 1950, antes disso, só se encontrava em Minas Gerais e sua receita era secreta
  • Você já ouviu falar da Revolta da Cachaça? Foi em 1660. Portugal não permitia a fabricação e comercialização da bebida. Apenas no dia 13 de setembro de 1661 a Coroa mudou de ideia e derrubou a proibição. Ficou instituída esta data como o Dia Nacional da Cachaça
  • Dom João VI amava carne de galinha, principalmente as coxas. Há relatos de que ele comeria de duas a três aves inteiras por dia
  • Em países como Tailândia e Japão não se come feijão salgado, mas doce
  • De acordo com a ABIMAPI (Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos Industrializados) 110 milhões de brasileiros usam o termo bolacha, enquanto que 99 milhões chamam de biscoito.
  • Na Tailândia você não vai encontrar facas na mesa, eles usam apenas garfo, colher e hashis, pois a comida já vem picada
  • O bolo de chocolate teria surgido em 1674, na Inglaterra. Tiveram a ideia de adicionar cacau à massa e de lá para cá é só amor
  • O Dia da Pizza surgiu em 1985, no estado de São Paulo. O então secretário de Turismo, Caio Luiz de Carvalho, promoveu um concurso para eleger as dez melhores receitas de mozzarela e margherita. O sucesso do evento fez com que a data de seu encerramento, 10 de julho, ficasse instituída como o Dia da Pizza. A data hoje também é comemorada em outros estados.
  • O chocolate considerado verdadeiro não tem leite e leva pelo menos 25% de massa de cacau. As marcas comerciais não são consideradas chocolate de verdade, segundo os especialistas (sigo amando da mesma forma)
  • A Rainha Elizabeth é chocolatra assumida e já comeu chocolate brasileiro
  • O estrogonofe verdadeiro não tem catchup nem tomate
  • A massa não foi criada pelos italianos, e sim pelo chineses
  • A cerveja foi criada pelos egípcios
  • Bolinho de aipim é um típico petisco brasileiro, o primeiro de todos!
  • A feijoada e o feijão com arroz não são originalmente brasileiros
  • A coxinha é criação brasileira
  • Batata, tomate, milho e cacau não existiam na Europa, vieram todos das Américas
  • O Falafel, bolinho frito de grão de bico típico do Oriente Médio, é ancestral do acarajé

 

A imagem original que usei para esta montagem está disponível neste link, conforme os direitos autorais.

 

Feijoada: a estrangeira que se tornou a mais brasileira de todas!

O prato símbolo da cozinha brasileira tem origens europeias. Mas isso não importa, ela é o acompanhamento perfeito para uma caipirinha de cachaça e um bom samba! Saiba mais sobre isso e ainda aprenda uma receita do Rio de Janeiro!

Falou em Brasil, falou em feijoada. Principalmente se essa imagem de Brasil tiver uma caipirinha e um samba. Entretanto, um dos maiores símbolos da gastronomia nacional não foi criado aqui, tem origens europeias. Os portugueses, em especial no Norte do país,  comem e já comiam porco e feijão preto, ingredientes básicos da receita. O que fizemos aqui foi dar nossos toques especiais e elevar o sabor ao patamar que conhecemos. Isso realmente faz sentido, afinal, feijoada é um prato pesado que não combina com o calor do Rio de Janeiro, por exemplo, onde é super popular.

Quem me contou estes fatos foi o historiador Milton Teixeira. Segundo ele,  a versão de que a feijoada surgiu com os escravos, que a preparavam com as partes do porco que os senhores não queriam, como rabo e orelha, é falsa. “Todos os países europeus têm pratos assim, com carnes variadas, conforme a disponibilidade local. Nossa feijoada surge a partir da adaptação de um prato francês, o cassoulet”, (se pronuncia cassulê). O historiador explicou que no século 18 tudo o que era da França virou moda, e não foi diferente em Portugal. O Cassoulet é feito com feijão branco e diversas carnes, como porco, frango e até perdiz, de acordo com o que se tiver. Os lusitanos passaram a usar feijão preto, pé de porco, linguiça e tudo mais que conhecemos. Chegando aqui, ganhou novas roupagens. Hoje os acompanhamentos obrigatórios são  arroz, farofa, couve, laranja e torresmo. A farofa é 100% brasileira.

 

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A feijoada, com seus acompanhamentos clássicos, não é mais apenas a comida popular do dia a dia. É Também um cardápio de festa.

Entretanto, não é por ser estrangeira que ela não tem espaço nas nossas panelas e corações. Aqui no Brasil, ela foi  transformada em algo especial. No Rio de Janeiro, antiga capital da Corte, eu nunca comi feijoada ruim, sério! Desde os restaurantes mais simples, até os mais caros e grandes eventos, todos sempre servem uma feijoada maravilhosa. Mas o destaque vai para a da Dona Leninha, tia de um amigo. A aposentada Rutelene de Lacerda, ou apenas Leninha, mora em Niterói, região metropolitana da capital fluminense. A feijoada dela está presente em todos os eventos da família, que é bem numerosa. É o cardápio oficial de qualquer festa: de aniversários a reuniões aos domingos. É uma das melhores, se não for a melhor, que já comi na vida!

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Dona Leninha começando os trabalhos

Já que vocês, leitores, não podem degustá-la, deixo a receita.

Para 1,5kg de feijão preto ( a família é grande) ela usa uma panela de pressão de 10 litros. Os ingredientes são:

  • 1 kg de carne seca
  • 1 chispe, que é o pé do porco
  • 500g de costelinha de porco defumada e salgada
  • 500g de linguiça calabresa
  • 500g de lombo de porco salgado
  • 200g de bacon
  • alho
  • 1 cebola
  • 3 folhas de louro
  • pimenta preta
  • sal

A carne seca, a costela, o pé e o lombo são deixados de molho já na véspera. No dia seguinte escalde-os umas três vezes para retirar o excesso de sal. Leve-os à panela de pressão com feijão, água, cebola,  louro e bacon. Deixe cozinhar por 40 minutos. Depois disso, coloque a linguiça, pois ela tem um tempo de cozimento menor. Conforme as carnes estiverem macias, retire-as. A costelinha, por exemplo, cozinha mais rápido e é bom não deixar que desmanche. Ao final, coloque alho frito (você pode fritar na própria gordura do bacon), sal e pimenta do reino. As carnes podem voltar à panela para servir tudo junto. Acompanhe com uma boa farofa, arroz branco, laranja picada e couve mineira. Eis a fórmula do sucesso!

Não deixe de ouvir a versão de rádio desta reportagem, está realmente uma delícia!

 

 

 

 

 

Dia do pão de queijo: fatos sobre esta delícia brasileiríssima

100% brasileiro, mais especificamente mineiro. Foi a nossa primeira opção de pão sem glúten e uma das maiores criações da humanidade.

Dia 17 de de agosto é o dia dele! Sabor e cheiro inconfundíveis que conquistaram brasileiros de Norte a Sul do país. Quando morei fora, senti falta dele, a opção de todas as horas: café da manhã, lanche, café da tarde, qualquer hora pede um pão de queijo. Um de meus irmãos uruguaios é viciado, cada vez que me visita passa em uma padaria, da mesma forma que, quando vou ao Uruguai, sou obrigada a levar a mistura pronta desta receita. Além de ser muito bom, é super indicada para celíacos, já que não contém glúten.

Você sabe o porquê desta data? Eu explico! A apresentadora de televisão Ana Maria Braga, em 2007, lançou um concurso de culinária em seu programa para eleger o melhor pão de queijo do Brasil. A quantidade de inscritos foi surpreendente, chegaram receitas variadas de todas as regiões do país. A final aconteceu no dia 17 de agosto e, devido ao sucesso, virou um marco no calendário para homenagear  esse rico patrimônio cultural mineiro e brasileiro.

Não é por acaso que a iguaria é um dos símbolos da maravilhosa cozinha mineira. Como acho que o pão de queijo merece todas as homenagens e deve sim ser motivo de muito orgulho, o Entre Cozinhas e Histórias não pode deixar de falar sobre ele. Conversei com a mestre em história pela Universidade Federal de Minas Gerais, Maria Letícia Ticle, sobre o surgimento deste quitute. Segundo ela, as primeiras receitas teriam surgido ainda no século XVIII, mas não por mera casualidade.

A atividade mineradora, iniciada no território que futuramente seria o estado de Minas Gerais no final do século XVI, atraiu uma quantidade enorme de pessoas em busca das jazidas de ouro e pedras. Isso impulsionou o crescimento populacional e, como consequência, a produção agropecuária, “feijão, milho e mandioca eram itens comuns na mesa do mineiro, assim como a banha e a carne de porco, o leite e seus derivados, especialmente o queijo”, explicou Maria Letícia.

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“Doces sonhos são feitos de queijo, quem sou eu para discordar? Paródia da música “Sweet Dreams”

A panificação portuguesa e a francesa, muito apreciadas na época, têm como matéria prima a farinha de trigo, mas o que fazer quando não se tem farinha de trigo? Se não tem pão, come brioche? Não!! Come pão de queijo! Todos os nossos vivas são para as cozinheiras, quase sempre trabalhadoras negras escravizadas. Na tentativa de reproduzir receitas europeias para agradar aos seus senhores, usaram os ingredientes disponíveis e criaram esta belezura.

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Segundo a historiadora da UFMG, o trigo era raro na região, “além de ser difícil de importá-lo, era quase impossível sua produção aqui”. Foi aí que tiveram a brilhante, magnífica e incrívilhosa ideia de usar o polvilho.

Podendo ser doce ou azedo, ele é um subproduto da mandioca. Bastou misturar com ovos, leite, banha de porco e queijo, muito queijo! Eis a fórmula do sucesso! O resultado já conhecemos, não preciso nem falar.

Até a década de 1950, o pão de queijo era uma exclusividade de Minas Gerais, até que ele se espalhou pelos outros estados (para a nossa alegria!).

Para a Nossa Alegria, sucesso nas redes sociais em 2012.
Para a Nossa Alegria, sucesso nas redes sociais em 2012.

A Maria Letícia revelou que, curiosamente, nessa mesma época houve um aumento estrondoso da importação e da produção nacional da farinha de trigo, mas isso não foi um obstáculo para o nosso pãozinho, que se popularizou cada vez mais.

E aí, gostou? Ouça a versão de rádio desta matéria.

Ah, não menos importante, como tive o privilégio de conversar com uma verdadeira mineira, já publico aqui duas receitinhas bem joia, sendo que a primeira eu já fiz e foi passada por ela. Uma dica que ela deu é sempre colocar muito queijo, pode colocar até mais do que diz a receita.

Receita 1

1kg de polvilho doce
1 copo americano de óleo
1 copo americano de leite
1 copo americano de água
1 colher de sobremesa de sal
0,5 kg de queijo ralado (Canastra curado, mas pode usar outro de sua preferência)
6 a 8 ovos

Ferva a água, o óleo e o leite juntos e despeje sobre o polvilho com sal, desmanchando os grumos bem até esfriar. Depois acrescente os ovos e o queijo, sove bem e faça as bolinhas. Devore!

 

Receita 2

Ingredientes

  • 200g de Polvilho azedo
  • 200g de polvilho doce
  • 300g de Queijo Canastra meia cura artesanal
  • 100g de Manteiga
  • 300ml de Leite integral
  • 100ml de Água
  • 15g de Sal
  • 4 Ovos

Modo de preparo

  • Em uma vasilha grande, coloque os dois tipos de polvilho, o sal e misture. Em uma pequena panela, coloque o leite, a água e a manteiga juntos para ferver. Quando começar a borbulhar, mexa para ficar homogêneo e despeje aos poucos todo o líquido sobre os ingredientes. Mexa vagarosamente com auxílio de uma colher e quando esfriar um pouco mexa com os dedos, sem sovar a massa. Deixe esfriar por uns 15 minutos.
  • Rale o queijo com o lado grosso do ralador e adicione-o junto com os ovos. Misture tudo e amasse a massa com as palmas das mãos até sumirem as bolinhas de polvilho, restando somente os pedaços de queijo.
  • Unte as mãos com uma gota de Óleo ou Azeite e enrole as bolinhas pequenas (20g cada). Unte o tabuleiro ou forre-o com papel alumínio e coloque os pães de queijo com 3cm de distância entre eles.
  • Pré-aqueça o forno a 180º e asse os pães de queijo até o ponto de seu gosto!
  • Devore!

 

 

Frango: delicioso e disputado

O franguinho nosso de cada dia já foi alvo de disputa judicial no Brasil. Pessoas precisaram fazer petição para poder comer a ave. Nunca ouviu falar disso? Eu te conto!

Frango assado, grelhado, frito, com polenta, com arroz, com farofa, na coxinha, no sanduíche…. A carne de galinha, ou frango, é super versátil e “menos polêmica”, já que, em princípio, o consumo da ave não é proibido por religiões, como acontece com o porco, exceto entre praticantes de alimentação vegetariana ou vegana.

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salve-se quem puder!

A carne deste animal é a segunda mais consumida no mundo, atrás da suína e na frente da bovina. O dados foram divulgados em 2017 pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos – USDA, que estima que a população mundial coma por ano 87,6 milhões de toneladas. O Brasil é o quarto maior mercado, o consumo médio é de 9,1 milhões de toneladas. O maior de todos são os Estados Unidos, com taxa anual de 15,5 milhões de toneladas. 

Tudo isso é para dizer que sim, quase todo mundo come! Mas nem sempre foi assim. Vamos falar sobre o Brasil. Segundo o historiador Milton Teixeira, os índios brasileiros não conheciam galinhas, o animal seria originário da Ásia. Os nativos foram apresentados às penosas pelos portugueses, que trouxeram umas quantas nos navios ao desembarcarem em terras tupiniquins pela primeira vez, em 1500. Segundo o historiador, o fato foi documentado. “Há relatos na carta de Pero Vaz de Caminha de que os portugueses apresentaram as aves aos índios”, explica. Entretanto, a carne do animal não foi apreciada logo de cara pelo índios. Segundo Milton Teixeira, eles comiam apenas os ovos. “Há relatos de que no século 16 havia aldeias onde era impossível caminhar devido à grande quantidade de galinhas”, revela o historiador. Quem mostrou que a carne poderia ser degustada foram os portugueses, que realmente gostavam muito!

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Corte portuguesa chegando ao Rio de Janeiro

 

Dom João VI, o devorador de galinhas

Ao chegar ao Brasil, a corte portuguesa deu um desfalque na então capital, Rio de Janeiro. Segundo o autor do Livro “1808- como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleão e mudaram a História de Portugal e do Brasil”, Laurentino Gomes, os nobres consumiam, por dia, 513 galinhas, frangos, pombos e perus. Sem contar as 90 dúzias de ovos. 

Sem dúvida, grande parte ia para o prato do rei Dom João VI. Ele entrou para história como um grande apreciador de carne de galinha, em especial das coxinhas. Em programas de TV ele costuma ser retratado como um glutão que em qualquer lugar e a qualquer hora tira uma coxa do bolso para comer. Isso foi verdade. O historiador Tobias Monteiro conta que o rei levava em seus passeios e viagens um estoque de galinhas assadas e desossadas. Guardava pedaços nos bolsos de seu casacão encardido e comia enquanto contemplava a paisagem ou parava para conversar com quem viesse saudá-lo.

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As piadas sobre o amor de Dom João VI pelos galináceos são mais velhas que andar para frente

Os hábitos custaram caro aos brasileiros. Laurentino Gomes conta em sua obra que foi determinado que todas as aves deveriam ser vendidas preferencialmente aos agentes da lei, o que gerou escassez para a população. Já o historiador Milton Teixeira vai além, segundo ele, chegou a ser emitido um decreto que determinava a apreensão de todos galos, galinhas e frangos no Rio de Janeiro, medida que evitaria que a nobreza ficasse sem seus pratos prediletos. Sem dúvida o povo ficou revoltado, criaram então uma petição exigindo o fim da lei e foram atendidos.

Agora que contei algumas curiosidades sobre esta ave, que parece tão trivial, talvez você passe a olhar as asinhas crocantes no seu prato com outros olhos!

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Que gosto tem escargot?

Escargot, ou apenas lesma, é uma iguaria da culinária francesa. Antes de fazer cara de nojo, saiba que comi e adorei!

Você comeria uma lesma? E escargot? São a mesma coisa, mas o segundo nome já remete à imagem da sofisticação da culinária francesa. Recentemente, aqui em São Paulo, vi uma lata de no máximo 200g de escargot em conserva por R$84,00. Em restaurantes,  uma porção de seis não sairá por menos de R$50,00. É caro, é diferente e bom!

Degustei esta iguaria em 2012, quando viajei ao Marrocos. Aliás, foi uma das melhores viagens da minha vida! Fiquei alguns dias em Marrakesh, foi lá que comi,  mais precisamente em Jemaa El-Fna, uma praça cheia de barraquinhas de comidas típicas e muito frequentada por turistas e moradores.

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Minha cara de dúvida ao comer o primeiro. Foto: arquivo pessoal

Os bichinhos são comida de rua, as barraquinhas vendem um ensopado de lesmas. Não lembro o preço, mas com certeza não era algo caro. Os marroquinos adoram, e não é para menos. A lesma tem uma textura firme, que lembra carne, assim como o sabor, que tem também um toque defumado e terroso. Uma delícia super diferente. No fim você toma o caldinho, igualmente bom. Entretanto, confesso que precisei fechar os olhos para comer. O bichinho é cozido dentro da concha e na hora de comer se retira ele com um palitinho. Nessa parte fiquei com nojinho, pois precisei olhar, mas depois valeu a pena.

É importante destacar, todavia, que os caracóis servidos como alimento não são catados por aí em qualquer jardim ou canteiro. A criação deste animal se chama Helicicultura. Eles são criados especialmente para consumo humano. Os cuidados específicos de higiene e qualidade justificam o preço elevado.

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A série de cuidados específicos na criação faz com que seja um dos pratos mais caros do mundo.

O nome tem origem francesa e não é por acaso que é consumido no Marrocos: o país foi colônia francesa entre o século 19 e o início do século 20, tanto que os idiomas oficiais são Árabe e Francês. Outra curiosidade é que é considerado afrodisíaco! Diversos estudos mostram que é um dos alimentos mais antigos, basicamente era o que o homem comia por ser o que encontrava mais facilmente. Em escavações arqueológicas em cavernas na Europa foram encontradas ossadas humanas ao lado de conchas de escargots. Recomendo!

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Comida para curar corpo e alma

Débora Campos usou a alimentação para tratar dos problemas de saúde dos filhos adotivos e para se aproximarem. Hoje Gabriela e Tiago estudam medicina e Tiago não precisa mais tomar remédios para hiperatividade e déficit de atenção.

A publicitária mineira Débora Campos contrariou as estatísticas e adotou um casal de irmãos com idade entre 5 e 8 anos. A maioria dos candidatos para adoção pede crianças menores, de preferência bebês. Entretanto, ela apenas queria ser mãe. Sua família foi encontrada em 2006, em Santa Catarina. Débora e o marido foram chamados para conhecer seus filhos, Tiago e Gabriela, com 6 e 7 anos respectivamente. “Chegamos lá e eram duas crianças lindas, eles foram um presente”, conta a mãe orgulhosa.

As crianças chegaram com inúmeros problemas de saúde devido à má alimentação na primeira infância, ambos estavam subnutridos. Gabriela tinha anemia e colesterol alto, Tiago foi diagnosticado com hiperatividade e déficit de atenção. Também havia complicadores emocionais: eles foram adotados anteriormente e devolvidos, além de terem passado por mais de um abrigo. Médicos e nutricionistas recomendaram cuidados redobrados com a dieta dos dois, em especial a do menino.

Crédito Arquivo Pessoal
Os irmãos chegaram ao lar com sérios problemas de saúde. Crédito: arquivo pessoal

A mãe foi orientada a retirar todos os estimulantes da alimentação do filho, como café, refrigerantes, açúcar e, inclusive, carne. “Foi uma grande surpresa, pois a alimentação deveria ser muito balanceada em termos de frutas e verduras e eu não sabia se eles comiam direito, tudo tinha que ser muito calculado”. Ela procurou uma segunda opinião e ouviu novamente que era preciso adaptar a alimentação, mas não cortar, apenas diminuir os estimulantes. Com a ajuda de uma nutricionista ela montou a dieta dos dois. O açúcar foi reduzido em 80%. “Nas festinhas e em ocasiões especiais eles comiam doces, mas no dia a dia não. Chegou uma época que o Tiago achava tudo muito doce e passou a rejeitar bombons, por exemplo”.

O açúcar refinado das receitas foi substituído por calda de cana-de-açúcar, frutas secas e mel. Alimentos de origem animal e gorduras drasticamente reduzidos e muita variedade de vegetais. “Para mim foi muito difícil porque eu não sabia cozinhar esse tipo de comida, comecei a comprar livros, pesquisar receitas, fazer cursos, ir a diversos nutricionistas”, lembra Débora.

Além disso, ela passou a levar os filhos rotineiramente ao seu sítio para que pudessem brincar em contato com a natureza. “Brincavam com terra, animais, lama, horta, eles colhiam os alimentos, que iam direto para o prato”. Débora também passou a fazer uso de muitos chás, em especial os calmantes para o filho. A alimentação diferenciada foi também uma forma de unir a família. Ela chamava os pequenos para ajudarem na elaboração das receitas e na escolha dos ingredientes. “A comida é também amor e une as pessoas, a alimentação foi uma forma de nos aproximarmos”.

O tratamento de Gabriela foi mais simples e rápido. Já Tiago tomou medicação para controlar o TDAH, além da dieta especial. Débora chegou a duvidar inicialmente do tratamento alternativo, mas o esforço valeu a pena: após cinco anos de remédios, o psiquiatra afirmou que não era mais necessário fazer uso dos comprimidos graças à alimentação. Além dos cuidados com o cardápio, foram adotadas estratégias para que ele pudesse se concentrar na escola, como fazer origami durante as aulas. “Realmente notei que teve diferença esse tratamento natural, a alimentação deu um reforço, ele ficou visivelmente mais calmo”.

Hoje eles não são vegetarianos, mas têm por hábito comer pouca quantidade de carnes. A regra que seguem é que 80% do que comem é saudável, e 20% são besteiras, como chocolates e batatas fritas. A saúde de ambos é invejável. Agora são futuros médicos e moram na Argentina, onde fazem a graduação. Já Débora tomou novos rumos após a experiência. Ela estuda Gastronomia e há 12 anos tem o blogue Viverdequê?, onde compartilha seus conhecimentos. A blogueira já conquistou mais 2,5 milhões de acessos, 38 mil inscritos no YouTube, 15 mil seguidores no Instagram e quase 70 mil curtidas no Facebook. “A comida une as pessoas”, define ela.

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A comida ajudou a estabelecer os laços afetivos. Crédito: Tiago Tavares

Tailândia: terra de cores, sabores e sorrisos

Yukontorn Tappabutt, participante do MasterChef em 2017, fala sobre a Tailândia e mostra que os sabores do país vão muito além da pimenta, uma das principais características da culinária local.

Com sotaque carregado e muitos sorrisos, Yukontorn Tappabutt, ou apenas Yuko, me recebeu em um sábado à tarde em casa, na capital paulista. Serviu um suco maravilhoso de uva branca com sementes de manjericão, que pareciam chia e que ela fez questão de dizer que não era. Durante toda a conversa ela sorriu e explicou muitos detalhes da terra natal.

A estrangeira ganhou fama em 2017, ao participar do programa MasterChef. A concorrente se destacou pelos pratos apimentados, pelo sotaque e, acima de tudo, pelas risadas. Mesmo com uma rotina estressante de gravações, mostrava bom humor. Entretanto, não se deixe enganar, ela adora competir. “Na Tailândia eu já competia, gosto de competições, até participei de uma de canto, mas não ganhei. Um dos prêmios que conquistei em meu país foi um de culinária tailandesa”.

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suco maravilhoso que ela serviu

Vida apimentada

Desde a infância a pimenta acompanha os tailandeses. Uma de suas lembranças é uma história contada pela mãe: como a comida é super apimentada, quando Yuko era bebê, a mãe pegava os pedaços de carne e chupava até ficarem praticamente sem cor e sem gosto e colocava na boca da filha. A cozinheira pondera, no entanto, que tinha meses nesta época, pois desde cedo as crianças são apresentadas aos sabores picantes. “Meu pai colocava o dedo na pimenta e botava na boca do meu irmão quando era bebê, ele começava a chorar e meu pai dizia que a criança estava feliz “, conta ela às gargalhadas.

 

Diferentes regras e sabores

Aos 33 anos, ela mora desde 2010 no Brasil. O que mais estranhou ao chegar foi o sal. “Aqui tudo é mais salgado, o brasileiro come mais sal que na Tailândia”. Os tailandeses temperam os pratos com caldo de peixe, açúcar, pimenta, ervas e algum elemento ácido, como tamarindo ou limão, sempre misturam muitos sabores. “Aqui dizem que tudo que tem contraste é comida moderna. No meu país sempre fizemos isso, até no pudim colocamos um pouco de sal”, conta Yuko.

O caldo de peixe é utilizado no lugar do sal. Para fazer este tempero escolhem peixes do mar sem apelo comercial, colocam sal e deixam descansar por alguns meses. O processo dá origem a uma água marrom, salgada e com um cheiro bem forte. Ela buscou duas garrafas deste condimento e de cara explicou que o cheiro é terrível, mas que é um produto muito saudável. De fato cheirei e o aroma não é nada apetitoso, ela mesma definiu como odor de “final de feira”, mas garantiu que o sabor deixado na comida é excelente. “Isso é coisa da Tailândia, se não tem isso na comida, não é tailandês”, explicou. A dica, portanto, é não cheirar antes de usar, pois literalmente fede a peixe podre. Outros países asiáticos, como Filipinas e Indonésia, também usam este caldo. Segundo Yuko, o caldo surgiu devido ao elevado número de casos de bócio no país pela falta de iodo. O governo tailandês decidiu pegar pequenos peixes que não são usados comercialmente e determinou a fabicação.

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Caldo de peixe: fedorento, mas bom.

Yuko apresentou uma infinidade de produtos diferentes, comprados no bairro da Liberdade, em São Paulo. Alguns eram misturas de curry de vários sabores, como pasta de camarão. Segundo ela, são chamados de curry em função dos ingleses. Os britânicos colonizaram a Índia, cujo tempero típico é curry. Chegando na Tailândia encontraram estas misturas e passaram a chamar de curry também, entretanto, Yuko afirma que são diferentes. Outro item indispensável na culinária tailandesa é uma vela para defumar. Basta preparar o prato, acendê-la e colocá-la em um suporte possibilitando que a fumaça fique em contato com o alimento. “Na Tailândia a gente defuma comida, doces, até roupa, tudo!”. Um de seus usos favoritos é em bolos, biscoitos e no hambúrguer. Justamente essa vela ela disse que não tem aqui.

Outra surpresa foi o açúcar de palma. É uma pasta de cor clara e açucarada utilizada para adoçar em vez do açúcar de cana. Ele é delicioso, lembra um mel. É menos doce que o nosso açúcar, além de, segundo Yuko, ser mais saudável, aromático e natural. “Faço leite condensado vegano com este açúcar e leite de coco”.

Ela mostrou também a folha de limão kaffir. Elas têm cheiro e gosto de limão, são amplamente utilizadas, Yuko usa no feijão no lugar do louro, além de outras preparações em substituição ao orégano.

Foi realmente uma tarde de descobertas. A cozinheira explicou que um dos motivos de tantas diferenças é o pouco contato que tiveram com países ocidentais, já que todo o sudeste asiático foi colonizado por europeus, exceto a Tailândia. “Nossa língua, comida e cultura não têm muitas interferências externas, com exceção dos doces”. Yuko revelou que doces de ovos são muito populares no país, já que portugueses estiveram por lá séculos atrás e apresentaram à população local as receitas. Apesar de apresentar tantos produtos, Yuko falou sobre a dificuldade de encontrar tudo aqui, o que dificulta preparar uma receita 100% tailandesa, como o seu prato preferido, que é bagre frito com molho de manga verde, bem ácido, com toque doce. É tipo um ceviche com fritura, de acordo com sua definição. Aliás, fritura é outra marca deles. A comida de rua, por exemplo, é um ovo com manjericão que pode misturar outros ingredientes, como camarões. O ovo é frito em bastante óleo para ficar bem crocante. “Tem bastante gordura, mas não colocamos sal, pois a comida já é poderosa, o ovo serve para cortar a pimenta. Omelete na Tailândia, por exemplo, é cheio de gordura, parece que você vai morrer no dia seguinte”, explicou e gargalhou. Também usam muito coco e seus derivados, como leite de coco. No entanto, ela afirma não ter problema de colesterol alto.

No geral, a asiática se adaptou bem ao Brasil, seu prato favorito é o estrogonofe, embora não seja originalmente brasileiro. No começo, sentia muita falta de manga verde e de uma fruta chamada Durian, que ela define como algo que você ama ou odeia, não há meio termo. Yuko ama. “A Durian é cremosa, parece creme inglês com lixo”, explicou e riu bastante.

Aqui no Brasil, comer feijão diariamente não caiu no gosto da tailandesa. Lá não tem muito desta leguminosa, comem mais soja. Além disso, eles usam o feijão em doces. “Minha mãe veio aqui e achou muito estranha a feijoada, pois para ela feijão deve ser doce”.

Yukontorn conta que o único alimento que se repete diariamente em seu país é o arroz, de resto as preparações são sempre diferentes, não repetem comida nem do almoço para o jantar. “Se tem 3 pessoas tem que fazer 4 comidas diferentes”, explica.

As regras à mesa também mudam bastante em relação aos nossos padrões. Cada um recebe um prato de arroz. Os acompanhamentos ficam em tigelas, cada uma com a sua colher. Serve-se uma colherada de uma das comidas e degusta-se com arroz. Somente ao acabar aquela colherada que se servem da tigela seguinte, e assim vai. Os tailandeses não enchem o prato nem misturam várias comidas no mesmo, como fazemos no Brasil. É um ritmo diferente. Na mesa é comum ter suporte giratório para ir provando de tudo, é assim no café da manhã, no almoço e no jantar, ou seja, há que se ter muita variedade de receitas.

Outro ponto curioso é que você não irá encontrar facas nas mesas. São utilizados apenas colher, garfo e hashis, pois os alimentos vêm sempre picados. O garfo não é levado à boca, serve apenas para ajudar a colocar a comida na colher.

As diferenças vão além da cozinha. Na Tailândia, apesar do calor e das praias paradisíacas, a população local não gosta de se bronzear, a moda é pele clara. “Lá é muito quente e usam mangas compridas para não pegarem sol, mesmo assim comem muita pimenta, ficam suando”, brinca. Eles vão à praia cobertos e há até injeções que fazem a pele descascar para ficar mais clara.

Perguntei como se diz “bom apetite” em tailandês e descobri que não há esta expressão no idioma. “Apenas chamamos para comer, sentamos e sorrimos”.

A Terra do Sorriso

A Tailândia é popularmente conhecida como a Terra do Sorriso. Sorrir é uma questão cultural. “De manhã podemos não dar bom dia, mas sorrimos. Na dúvida, sorria”, revelou Yuko, sorrindo muito, evidentemente.

Entretanto, tanta simpatia nem sempre é compreendida. Ela já teve alguns problemas por aqui, como no programa MasterChef. “Tive dificuldades no MasterChef, as pessoas às vezes não entendem que na Tailândia sorrimos muito sempre, às vezes achavam que eu levava tudo na brincadeira.”

Ela define também seus conterrâneos como pessoas gentis. De acordo com Yuko, seu país é muito seguro, pois, apesar de pobre, há muito respeito pelo coletivo. “A Tailândia não é um país rico, mas é limpo e respeitam a natureza”.

Não preciso dizer que rapidamente coloquei a Tailândia em meu roteiro.